País
Patriarca Rui Valério: "Vejo o imigrante como um irmão, o próprio Cristo que vem ao meu encontro"
Quando um migrante chega a Portugal "vejo um irmão e não estou a dizer isto para ser poético, não tenho veia de poeta". Rui Valério, patriarca de Lisboa, foi o convidado desta noite na Grande Entrevista da RTP. Questionado sobre o atraso nas indemnizações às vítimas de abusos, o bispo defende que a igreja foi corajosa nesse processo.
Sobre esta questão da entrada de pessoas no país, Rui Valério respondeu que quando um migrante chega a Portugal “vejo um irmão e não estou a dizer isto para ser poético, não tenho veia de poeta”.
Quando um migrante entra no país “vejo um irmão e sou até capaz de ir um pouco mais longe: eu vejo o próprio Cristo que vem ao meu encontro. Por isso é-me exigido a possibilidade de lhe oferecer condições mínimas de habitabilidade, de emprego, de autonomia, de realização, de felicidade, que nem sempre será possível”, considerou, não desvalorizando ser imperioso organizar essas entradas.
E “do Martim Moniz só tenho belas experiências”, acrescentaria o patriarca de Lisboa, referindo-se a um local paradigmático das comunidades imigrantes na capital e muitas vezes considerado um centro de problemas trazidos por essas comunidades.
Processos de abusos "levam tempo"
Sobre os abusos que ocorreram durante décadas no seio da Igreja Católica, Rui Valério admite que há uma razão de ser para avaliações negativas e uma espécie de silenciamento, com a igreja a atravessar uma crise de credibilidade.
Defendeu, por outro lado, a capacidade da igreja "de acompanhar o sofrimento das vítimas e tudo fez para reparar".
Confrontado com o tempo que a instituição levou para enfrentar estes seus problemas com os abusos sexuais, afirmou que neste processo "tivemos que ouvir muitas pessoas, muitas pessoas... Houve reconhecimento e acompanhamento, compreensão que permanece e tudo isso demora algum tempo".
Rui Valério considera que a igreja seguiu princípios do Evangelho e orientações do papa Francisco para lidar com os processos.
Antes, numa palavra dedicada à esperança, o patriarca ancorou-a à fé e disse ver nisso um sinal de deus. Convidado a enquadrar este pensamento para os povos da Faixa de Gaza, do Líbano e do Irão, a viverem a realidade da guerra, contrapôs com o vazio que seria um povo que “se sentisse só”.
“Face a este uso e abuso da força, que depois se revela como uso e abuso da ética, os profetas ensinaram-nos que deus pode estar na nossa denúncia, na nossa crítica, no mistério e no incompreensível face à história e às grandes circunstâncias da história”.
“Não obstante a circunstância que esses povos estão a passar, é mais do que nunca o momento para apelar a essa dimensão profética de compreensão da presença de deus na interpretação do momento histórico”, acrescentou.
Rui Valério, questionado sobre a concretização dos valores cristãos no conflito que se desenvolve no Médio Oriente, aponta “uma contradição da evolução civilizacional”.
“Acreditava que a ética era suficientemente poderosa” do reconhecimento do outro como ser humano, que precisa de ser protegido, da ética da responsabilidade ou da ética como coerência, “mas os dados em cima da mesa contradizem-se a si próprios e vêm a ter como consequência as vítimas de sempre”.
Sobre a responsabilidade do início do conflito no Irão, o patriarca de Lisboa considera não ser fácil apontar um dos beligerantes.
A propósito do papel da Igreja Católica e do que parece ser o silêncio neste mundo de problemas, Rui Valério evocou uma vigília de oração pela paz no mundo que organizou na Estrela, em Lisboa.
“Dir-me-á que é só uma vigília, mas essa vigília conseguia dar às populações em causa a certeza de que não estavam sozinhas”, sublinhou, para lamentar que este tipo de ações não mereça a devida atenção: “Muitas vezes a voz da igreja é silenciada”.
Quando um migrante entra no país “vejo um irmão e sou até capaz de ir um pouco mais longe: eu vejo o próprio Cristo que vem ao meu encontro. Por isso é-me exigido a possibilidade de lhe oferecer condições mínimas de habitabilidade, de emprego, de autonomia, de realização, de felicidade, que nem sempre será possível”, considerou, não desvalorizando ser imperioso organizar essas entradas.
E “do Martim Moniz só tenho belas experiências”, acrescentaria o patriarca de Lisboa, referindo-se a um local paradigmático das comunidades imigrantes na capital e muitas vezes considerado um centro de problemas trazidos por essas comunidades.
Processos de abusos "levam tempo"
Sobre os abusos que ocorreram durante décadas no seio da Igreja Católica, Rui Valério admite que há uma razão de ser para avaliações negativas e uma espécie de silenciamento, com a igreja a atravessar uma crise de credibilidade.
Defendeu, por outro lado, a capacidade da igreja "de acompanhar o sofrimento das vítimas e tudo fez para reparar".
Confrontado com o tempo que a instituição levou para enfrentar estes seus problemas com os abusos sexuais, afirmou que neste processo "tivemos que ouvir muitas pessoas, muitas pessoas... Houve reconhecimento e acompanhamento, compreensão que permanece e tudo isso demora algum tempo".
Rui Valério considera que a igreja seguiu princípios do Evangelho e orientações do papa Francisco para lidar com os processos.
Antes, numa palavra dedicada à esperança, o patriarca ancorou-a à fé e disse ver nisso um sinal de deus. Convidado a enquadrar este pensamento para os povos da Faixa de Gaza, do Líbano e do Irão, a viverem a realidade da guerra, contrapôs com o vazio que seria um povo que “se sentisse só”.
“Face a este uso e abuso da força, que depois se revela como uso e abuso da ética, os profetas ensinaram-nos que deus pode estar na nossa denúncia, na nossa crítica, no mistério e no incompreensível face à história e às grandes circunstâncias da história”.
“Não obstante a circunstância que esses povos estão a passar, é mais do que nunca o momento para apelar a essa dimensão profética de compreensão da presença de deus na interpretação do momento histórico”, acrescentou.
Guerra como retrocesso civilizacional
Rui Valério, questionado sobre a concretização dos valores cristãos no conflito que se desenvolve no Médio Oriente, aponta “uma contradição da evolução civilizacional”.
“Acreditava que a ética era suficientemente poderosa” do reconhecimento do outro como ser humano, que precisa de ser protegido, da ética da responsabilidade ou da ética como coerência, “mas os dados em cima da mesa contradizem-se a si próprios e vêm a ter como consequência as vítimas de sempre”.
Sobre a responsabilidade do início do conflito no Irão, o patriarca de Lisboa considera não ser fácil apontar um dos beligerantes.
Lembrando um caso de homicídio que mereceu atenção dos media em Itália, o prelado traçou um retrato das atuais lideranças mundiais como indivíduos que espoletam conflitos e depois não assumem “a responsabilidade de um ato… fica sempre para os outros”, revelando “falta de caráter e imaturidade”.
Sobre uma eventual falência moral das lideranças, Rui Valério prefere “assumir essa perspetiva numa dimensão mais global”. “A ética é cada vez mais o parente pobre do nosso dia a dia”, considerou o patriarca, apontando à dificuldade e hesitação para lidar com problemas como a guerra, os migrantes e a pobreza.
O bispo recuperou as palavras do papa nesse sentido, lamentando nesse sentido “forças que estão a silenciar a força da ética e da moral a nível planetário”.
Igreja silenciada
A propósito do papel da Igreja Católica e do que parece ser o silêncio neste mundo de problemas, Rui Valério evocou uma vigília de oração pela paz no mundo que organizou na Estrela, em Lisboa.
“Dir-me-á que é só uma vigília, mas essa vigília conseguia dar às populações em causa a certeza de que não estavam sozinhas”, sublinhou, para lamentar que este tipo de ações não mereça a devida atenção: “Muitas vezes a voz da igreja é silenciada”.
Lamentou igualmente o que considerou ser “um bloqueio à liberdade religiosa”, quando no último fim de semana o patriarca de Jerusalém foi detido pelas forças israelitas e impedido de celebrar missa de Domingo de Ramos na Igreja do Santo Sepulcro.